Recanto Madre Paulina (Petrolina, PE):
É preciso conhecer e salvar esta obra

*Maristela Barenco Corrêa de Mello

Neste mês de janeiro de 2008, saímos em 3 amigos, de carro, buscando seguir o curso Rio São Francisco: atravessamos Minas Gerais, a Bahia e Pernambuco. No dia 31 de dezembro, na hora do por-do-sol, estávamos nós, defronte à Igrejinha de São Francisco, em Sobradinho, onde dias antes fora interrompido o jejum de D. Cappio. Não tivemos a alegria e o prazer de encontrá-lo. Mas encontramos outros tesouros na região que, como o Rio São Francisco, encontram-se também ameaçados, colocando em risco a vida de muitos nordestinos, sobretudo os doentes e pobres. Queremos partilhar com vocês o trabalho de Ir. Maria Luciano Florentino, do Recanto Madre Paulina.
Irmã Maria é uma pessoa muito especial. Aos 78 anos de idade e grande jovialidade e saúde, conjuga muitas experiências: a profissional, de longos anos de enfermagem, a de longos anos de terapias naturistas e orientais (iridologia, acupuntura, radiestesia e homeopatia) e mais de 5 décadas de uma fé disciplinada e inabalável, cujo serviço a Deus se traduz no serviço aos irmãos, sobretudo os doentes e mais excluídos. Está à frente de uma Obra Social – o Recanto Madre Paulina – que tem o nome da fundadora de sua Congregação, que já vai para 3 décadas... sem nenhum financiamento, parceria e apoio, encontrando-se, neste momento numa crise financeira ímpar. Junto com ela atua uma equipe dedicada e maravilhosa. Quem quiser encontrá-la diariamente é só ir até o Recanto, onde ela passa o dia atendendo aos doentes. Em consultas cuidadosas e minuciosas, Ir. Maria faz-nos lembrar um tempo onde éramos totalidades não fragmentadas.

O trabalho tem início às 5:40 horas da manhã, quando, enfileirados, lado a lado, aguardam-nos baldes com água fria e quente, para o escalda-pés, a primeira terapia do dia. Zezinho, terapeuta que está no local há muitos anos, dinamiza o trabalho terapêutico, simples, mas trabalhoso. Os banhos são diversos: o de tronco, o de vapor, com ervas, o grande banho após a terapia com o barro. Paralelamente tomamos o suco puro de limão, mais tarde o extrato de ervas frescas, os chás e as homeopatias. Após os banhos, há a caminhada sobre os seixos do jardim, os exercícios de circulação, ginástica, yoga, reiki, shiatsu, massagem. Após um almoço vegetariano e nutritivo, reunimo-nos em volta de uma roda de partilha e oração e, finalmente, vamos para a terapia do barro, onde ficamos deitados, meditando e descansando, em silêncio, buscando-nos regenerar com a irmã-terra, da qual viemos e para onde retornaremos, e de onde a modernidade nos afastou. A proposta é muito simples: o Recanto nos ajuda a limpar e purificar o sangue, o grande Rio que corre dentro de nós e nos nutre.

Outra experiência importante é a do encontro das várias pessoas que lá se internam, umas mais doentes, outras menos, todas buscando um fortalecimento mútuo. É de se emocionar... Aos poucos desponta um grande sentimento de gratidão, à Deus, à vida, aos companheiros, aos terapeutas, à Irmã Maria, enfim, ao Recanto Madre Paulina. Pessoalmente, testemunho que ninguém deveria ter um problema de saúde sem ter a oportunidade de passar por lá... Mas penso também que ninguém deveria esperar ficar doente para conhecer esse trabalho, extremamente acessível.

A seguir, vamos conhecer mais um pouco a vida e a obra de Ir. Maria.

1- Como teve início esse trabalho?

Tudo tem uma história. Nada cai do céu. Em 1983, entrei em estafa e tive que ir embora daqui do nordeste, porque entrei em choque com a fome do povo. No tempo do governo Sarney, havia a impossibilidade do povo comer carne e ainda tinha o ágio. Na Santa Casa, onde eu era enfermeira, sentia-me atendida em todas as minhas necessidades. Mas e os pobres? Eles não me saíam do coração. O contraste do nordeste com o sul, de onde eu sou e de onde eu vinha, causou-me um grande impacto, de tal forma, que eu não conseguia mais me alimentar. Quando eu estava comendo, os pobres chegavam e eu comecei a me sentir bloqueada. Não tinha condições de resolver os problemas dessa população. Sentia-me impotente e bloqueada. Ia visitá-los e ficava impactada com as suas moradias, que eram quadrados de 2x2, sem camas e sinais de vida. Isso aí é duro: via, nos fundos das casas das famílias, pedras (que eram fogões) que denunciavam que havia dias sem cozinhar nada. Famílias com muitas crianças. E a pobreza traz doença. Aqui era muita miséria, fome e doença. O povo viu em minha pessoa, enfermeira aposentada, e em Ir. Graciema Terezinha Tamanho, com quem eu trabalhava, a saída para os seus problemas.

“Na Santa Casa,
onde eu era enfermeira,
sentia-me atendida em todas as minhas necessidades.
Mas e os pobres? Eles não me saíam do coração”

Com problemas de estafa, retornei ao Sul. Encaminharam-me para uma Casa de Saúde, ministrada pela Conferência dos Religiosos do Brasil, através da equipe de Pe. Augusti, em Belo Horizonte. A partir daí comecei a viver esses princípios do Naturismo. Apresentei essa prática num capítulo da Congregação, fruto de uma experiência de 1 ano, em 1986. A Congregação aprovou, sobretudo diante dos testemunhos. Cada irmã tinha apenas um salário. Cada participante trazia sua alimentação e ficavam 15 dias fazendo uma purificação.

Vi neste trabalho a possibilidade de minimizar a carência local dos nordestinos. De posse deste instrumental, senti-me forte para retornar ao nordeste. De lá pra cá, nestes 28 anos, nunca mais parei. Nunca ninguém parou de vir. Não houve esse planejamento. Mas foi a necessidade.

O trabalho começou através da emissora rural e da criação de hortas nas Escolas (que têm água e são muradas). Essas hortas (8) existem até hoje. Virou um hábito local. Cuidamos de uma que está num Colégio, mas pertence ao Recanto. Há muitos canteiros e muitas pessoas sobrevivendo desses canteiros. As hortas geraram a melhoria da realidade local. O espaço da Escola é cedido às famílias.

Inicialmente, as condições eram muito limitadas. E o povo daqui não tinha continuações de ajudar. Aqui tinha mais barracos que casas. No tempo de chuva, carregávamos o povo pra dentro da Igreja e ajudávamos, em mutirão, a construir as casas.

2 – A proposta do Recanto nasceu inspirada por qual carisma e qual missão? Qual a visão de saúde?

O trabalho nasceu inspirado pelo carisma da congregação Madre Paulina. O nosso carisma é a evangelização em escolas, creches, casas de repousos, de idosos, a acolhida da criança e dos abandonados. Servir à Igreja local, onde cada se encontra. Neste contexto, o objetivo foi acolher esse povo para lhes mostrar outras possibilidades de alimentação e de vida.

A nossa visão de Saúde está na possibilidade de uma boa alimentação e das condições de saúde onde se vive. A saúde não está na farmácia, mas naquilo que se come, além do bem-estar integral. Se eu penso que tenho saúde e que sou capaz, faço. A saúde está dentro de mim, mas precisamos ter a coragem de mudar de hábitos.

3- Qual a importância deste trabalho no contexto nordestino?

“Mas, quando os casos são graves e não podem ficar aqui, prefiro morrer com eles que deixá-los sós”

No passado a realidade era muito mais dura que hoje, 28 anos depois. Mas até hoje, quando chegam pessoas com casos muito graves, que não podem ficar aqui, acompanho-os nas filas dos hospitais e permaneço junto com elas. Entendo que o meu direito vai até um limite. Respeito a medicina tradicional e os médicos, com quem trabalhei por 33 anos em hospitais. Respeito os princípios que aprendi e vivi e, talvez por isso, não tenha problemas com médico algum. Mas, quando os casos são graves e não podem ficar aqui, prefiro morrer com eles que deixá-los a sós. Apesar disso, os hospitais não abrem as portas para mim.

Atualmente, há 8 anos que não chove. Isso gera muitos problemas. Quem não está na beira do Rio São Francisco tem que ter muita estrutura pra viver. Ano passado teve uma chuva, muito imperceptível. Aqui chove de dezembro a março. Esse ano a seca está prolongada. Em um mês (de novembro de 2007 a janeiro de 2008) o Rio já desceu consideravelmente em seu nível, numa média de 2 metros para dentro. Há 10 anos que isso não acontecia... Essa é a realidade.

4- Em média, quantas internações já se deram no Recanto Madre Paulina nestes 28 anos?

Durante 12 anos seguidos, aproximadamente, tivemos uma média de 800 internações ao ano, com um total aproximado de 9.600 pessoas. Hoje, com a abertura de outras casas que fazem um trabalho parecido, a média fica entre 300 a 400 internações por ano.Mas já devem ter passado por aqui aproximadamente mais de 16 mil pessoas. O Recanto foi uma Casa pioneira no Naturismo. Hoje, há concorrência. Na época, éramos o novo e inacreditável, vistas por muitos como feiticeiras. Hoje há muitas outras casas, muitas delas inspiradas no trabalho daqui. Muitas casas já abriram e fecharam, porque dependeram de verbas externas. O Recanto sempre viveu com verbas próprias, dos que podem contribuir.

5- Qual o perfil das pessoas que passam por aqui, em termos de idade, classe social e problemática?

Uma média de 70 a 80% são mulheres que nos procuram. Elas não ficam tanto tempo, em função de suas famílias. Mas elas se abrem mais para o novo do que os homens. Aqui atende-se também recém-nascidos, com grande sucesso. Uma vez veio aqui um casal novo com uma criança com espinha bífida. O que pudemos fazer, num caso deste, foi ensinar aos pais os princípios do naturismo. E assim eles criaram essa criança. Para nossa surpresa, ela voltou com 10 anos e não precisou de cirurgia. É praticamente normal. A espinha fechou, a cabeça não cresceu, os traços são mínimos e ela apenas urina mais.

“Com uma gratuidade prevista para 21% dos atendidos,
chegamos a atender, gratuitamente, acima de 40% dos
que nos procuram...”

As mulheres são mais cansadas e estafadas que os homens. Quanto às problemáticas, as mais comuns são constipação intestinal (doença da sociedade moderna), a ansiedade, a insegurança, a depressão, os distúrbios psíquicos. As pressões sociais são grandes. As mulheres com relacionamentos rompidos, também. A maioria é dos que aqui chegam são os pobres, os que sobram do sistema de saúde. Muitos vêm diretamente de internações, trazidos por ambulâncias.

O Recanto é uma Instituição filantrópica, que já possuiu o título de utilidade pública federal, mas que está em fase de pedido de renovação. Com uma gratuidade prevista para 21% dos atendidos, chegamos a atender, gratuitamente, acima de 40% dos que nos procuram, o que se torna um problema institucional, já que a fonte única de renda vem destas contribuições pessoais.

6- Quais os resultados alcançados? Exemplifique.

“De 50% para cima alcança-se
o sucesso no tratamento.
O que me estafa
é não conseguir tirar a dor e o sofrimento do outro”

De 50% para cima alcança-se o sucesso no tratamento. O que me estafa é não conseguir tirar a dor e o sofrimento do outro. O povo geralmente roda muito, gasta o dinheiro com tratamentos convencionais e depois, quando não há mais dinheiro nem esperança, vêm para cá. Exemplos: A Esclerose Múltipla é considerada uma doença irreversível e progressiva. Mas aqui testemunhamos 80% de melhoras. Não me lembro de ninguém que não tenha tido melhoras significativas. Muitos casos não têm reincidência. São casos de cura mesmo. Uma moça que já tinha 6 anos em cadeira de rodas se recuperou. A esclerose, do tipo aminotrófica lateral, é mais difícil e desafiante, mesmo na busca de uma melhora significativa. Outra questão é a obesidade. Perde-se, na casa, uma média de 500 g por dia com o tratamento proposto e a alimentação. Mas há um caso em que a pessoa perdeu 30 kg em 23 dias. O resultado é muito satisfatório. E isso sem gerar qualquer quadro depressivo.

Há resultados satisfatórios, também, em relação à depressão. Aos poucos, a fitoterapia, a homeopatia e a acupuntura vão substituindo os medicamentos convencionais. Em diabete juvenil não se pode tirar a insulina. Mas os adultos que cooperam, saem tomando os chás. Mulheres e homens que não podem engravidar também buscam o Recanto e têm resultados. Nem uma pessoa passou mais de 3 meses sem engravidar. Conhecemos muitas crianças, as quais chamamos de “crianças de barro”, umas com mais de 20 anos! Mas reconhecemos a importância em 50% da alimentação e também do barro, pois tivemos muitas curas antes de termos o conjunto das terapias atuais. Hoje trabalhamos também com massagens. Aluísio e Zezinho, que trabalham conosco e são como filhos para mim, são massagistas e foram formados nesses anos. Uma massagem bem administrada opera milagres. Há pessoas que entram chorando e saem sorrindo.

7- O Recanto Madre Paulina têm muitos parceiros?

Os nossos parceiros são a equipe de funcionários, que vivem a crise e permanecem conosco, e os usuários. Estamos ensaiando uma relação com a Universidade do Vale do São Francisco (Univasf), que teve início através de um atendimento familiar. Há a possibilidade de se abrir o Recanto para local de estágio. Estamos também envolvidos num projeto de reflorestamento às margens do Rio S. Francisco, com plantas medicinais (cascas). Há uma empresa que fornecerá os encanamentos para a água, necessária ao Reflorestamento.

8- Quais as dificuldades, desafios que o Recanto atualmente enfrenta?

“Só fico aqui no Recanto se puder atender,
sobretudo, os pobres.
No dia em que isso mudar eu não estarei mais aqui”

A principal dificuldade é a financeira. Nunca no passado devemos salários. Isso está acontecendo pela primeira vez. Isso me causa muita dor, porque entendo que os funcionários estão aqui porque precisam do trabalho. De 15 funcionários, passamos no último ano para 9. Há um déficit de R$ 10 mil / mês. Mas só fico aqui no Recanto se puder atender, sobretudo, os pobres. No dia em que isso mudar eu não estarei mais aqui. À medida que o dinheiro entra, repassamos diretamente para os funcionários. Esse ano foi uma crise permanente.

Recebemos uma vez uma ajuda de 30 mil reais. Veio por intermédio de um padre italiano, amigo do irmão de Ir. Graciema, que hoje se encontra em Belo Horizonte. No tempo de juros altos do governo Sarney foi possível fazer parte desta construção.

Infelizmente, a Diocese de Petrolina não apóia o trabalho e inclusive quer de volta o espaço, há algum tempo. A Comunidade apóia o trabalho e têm nos dado força para permanecermos aqui.

“A Chácara foi um presente de Deus
para a reconstrução de um novo Recanto.
E sinto em meu coração que este projeto será um dia realizado”

Fiquei durante 6 anos sozinha aqui nesta obra. Com a saída da minha Congregação do local, pedi uma licença por 3 anos, renovei o pedido por mais 3, para dar continuidade ao Recanto. Mas entendo que tirei uma licença em função de uma Missão. Nunca por dúvidas de vocação! Nunca fiquei e nem me senti sozinha neste tempo. A Comunidade sempre me apoiou. Agora estou novamente com outra Irmã, Dalila, que realiza um trabalho importante com a Catequese e nas Escolas. Eu amo a minha Congregação e também esta Comunidade.

Nestes 6 anos em que estive licenciada da Congregação, ganhamos de presente, de uma cliente, portadora de esclerose múltipla, uma Chácara, à beira do São Francisco. A Chácara foi um presente de Deus para a reconstrução de um novo Recanto. E sinto em meu coração que este projeto será um dia realizado. O que falta são recursos para a Construção...

Maiores informações:
Ir. Maria Luciano Florentino
Rua José Costa Lima, 326
Bairro Ouro Preto – Petrolina
56.318-020
Fone: (87) 3863-2492
email: recantompaulina@ig.com.br / ir.maria.florentino@hotmail.com

*Coordenadora pedagógica do Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis e doutoranda em Meio Ambiente (Uerj).

Sobre a lição dos Rios,
sobre os rios que correm dentro de nós,
no dia internacional dos direitos humanos

*Maristela Barenco Corrêa de Mello

Ama as águas!
Não te afastes delas!
Aprende o que te ensinam!

(Sidarta, de Hermann Hesse)

 


O atual embate político entre o Governo Lula e os Movimentos Sociais, acerca da transposição do Rio São Francisco, traz à tona - mais do que figuras humanas e políticas -, arquétipos que habitam em todos nós. Por isso o contexto é tão difícil de ser entendido: coloca frente a frente dimensões e lógicas distintas demais nos personagens centrais: Lula e o Governo, de um lado; D. Cappio e o Movimento Social, de outro. Atores que foram gestados e partilharam de uma mesma infância, adolescência e juventude de sonhos e projetos, agora se antagonizam, evidenciando a predominância de diferentes arquétipos que vão se constituindo em nossas almas a partir dos horizontes que vislumbramos ao longo da vida.

As palavras, os discursos e a razão, nesta conjuntura política, parecem velar e encobrir mais do que desvelar, descobrir e iluminar nossas dúvidas acerca do Projeto do Governo. Lula e o Governo simplesmente parecem não ter o que dizer e argumentar. Não dialogam, não informam, não trocam pontos de vista. Pela primeira vez, inclusive, a palavra, o discurso e a razão de Lula e do Governo não estão sendo alvos de crítica da direita. Por que será?

Este cenário é muito tenso e muito triste para todos nós, os que elegemos o Lula, e que respeitamos a sustentabilidade ecológica, cultural, econômica, social e ética. Diante disso, trazemos uma reflexão literário-poética, no dia internacional dos direitos humanos, com a esperança de que a mesma possa tocar os nossos corações e emoções , sobretudo. Não será por acaso que Jesus escolheu as parábolas...

O clássico Sidarta, de Hermann Hesse

Em 1950, o escritor Hermann Hesse publicou um clássico, com o título de Sidarta, que, além de ser belíssimo, é fonte de inspiração permanente para pensarmos os arquétipos que ganham vida e forma dentro de nós em nossa trajetória humana e histórica.

O livro conta a história do belo Sidarta, filho de brâmane, de extrema religiosidade, de testa luzente e olhos de rei, que despertava amor e admiração em todos os que o rodeavam, mas para si mesmo não era fonte de alegria e admiração. Sidarta, desde muito cedo, abrigava em suas entranhas o descontentamento de perceber que apesar de ter aprendido a maior e melhor parte dos seus conhecimentos com seus pais, mestres e sábios brâmanes, sentia-se vazio, com espírito insatisfeito, alma inquieta e o coração insaciado. Prezava os conhecimentos e as tradições, mas estava cansado dos sábios, ascetas e sacerdotes que só logravam conhecer e não praticar e viver essa profunda sabedoria, que não conduziam às pessoas para dentro de si mesmas.

Ao lado de Sidarta cresceu Govinda, seu amigo, também filho de brâmane. Ambos partilhavam o cotidiano da infância e da adolescência, meditavam juntos, conversavam muito e nutriam sonhos e crenças em comum. Govinda admirava Sidarta desde muito cedo. Em seu coração, inspirado pelas idéias brâmanes, também intuía o desejo de ser grande - talvez como Sidarta -, mas não encontrava referências em si mesmo. Sabia que seu amigo não seria indolente oficial do templo, nem ganancioso mercador de fórmulas mágicas, nem orador vaidoso e vazio, nem tampouco sacerdote perverso, bifronte e muito menos ovelha bonachona, estúpida, em meio ao rebanho de outros iguais. Govinda não sabia qual caminho seguir, e por isso, decidiu seguir Sidarta.

Um dia Sidarta decidiu partir em busca daquilo que poderia preencher o vazio de sua alma. Enfrentou família e tradições e pôs o pé na estrada, seguindo um grupo de ascetas peregrinos, chamados samanas, que passavam em sua cidade e inspiravam-no a coragem dos grandes homens. Era o início de sua jornada, que começa com um movimento de pôr os pés na estrada. Govinda, ao sabê-lo, entrou em pânico. Não podia perder Sidarta, mas nas tinha a coragem de uma decisão desse porte. Mas no amanhecer seguinte, quando Sidarta deixava a cidade, convicto, Govinda se juntou a ele para ir com os samanas.

E assim a grande jornada começava. Quem quiser conhecê-la em seus maravilhosos detalhes e significados, deve buscar o livro. O fato é que muitos foram os encontros de Sidarta. Dos mais ascéticos e espirituais aos mais terrenos e materiais. Mas Sidarta aprendeu com cada um deles, e dominou a arte de esperar, jejuar e meditar, como uma das maiores aquisições, que o conduziu ao grande Encontro. De posse dessas aquisições, Sidarta encontra um balseiro, Vasudeva, e, finalmente o Rio.

Govinda tentou seguir Sidarta até onde pôde. Resolveu tornar-se discípulo do Buda Gautama e assim passou toda a sua vida, ainda que no final da mesma procurasse algo que nunca encontrou. O Budismo era grande. A alma de Govinda parecia frágil.

Vasudeva, o balseiro, vivia de travessias... mas não buscava nada; apenas conduzia aqueles que buscavam. Aprendera com o Rio que nada se busca e tudo se vive. Havia aprendido todas as lições desse Rio, de quem fora discípulo. E dizia: Prefiro esse rio a todo o resto do mundo. Muitas vezes escutei o seu murmúrio, muitas vezes observei o seu olhar e nunca deixei de aprender dele. Um rio pode ensinar-nos um tanto de coisas.

Entre os personagens, há um, em especial, que não vem em forma humana. É o Rio, que atravessa a vida de todos. É a Fonte e o Desembocadouro. É como fio condutor de todas as vidas que ali se tecem em sua complexidade. É o Sábio que acolhe e ouve a todos que dele se aproxima e por isso tornou-se o grande Mestre. O Rio também ensina. Rio que não é recurso natural a ser explorado. Rio que enlaça a vida de um e de todos, que tem muitas histórias, memórias, subjetividades, representações e crenças. Rio que é a própria Vida!

Embora Sidarta, Govinda e Vasudeva sejam os grandes personagens da Obra, bem diferentes e individualizados, mais do que pessoas, sabemos que eles são dimensões e arquétipos que vivem dentro de cada um de nós. Coabitam em nossos corações.

Há dentro de nós a possibilidade de um Sidarta, que se traduz em altivez e determinação para se colocar a caminho, e em abertura para aprender com tudo e todos os que o cercam. Sidarta nunca se perde, porque sempre aprende com o que se depara, faz sínteses, adquire maturidade e experiência. Sidarta é aquela dimensão rara, porque preciosa, que aprendeu a jejuar, a meditar e a esperar, e que nunca sucumbe porque sabe qual o seu propósito.

Há dentro de nós a possibilidade de um Vasudeva, o balseiro, que são os mahatmas, grandes almas da existência, dimensão esta que se traduz na serenidade daqueles que já encontraram o essencial e sabem distingui-lo de todos os supérfluos. O Vasudeva já encontrou o Rio, já aprendeu a ouvi-lo, a escutar as suas lições e a promover encontros e travessias com quem o cerca. Por isso Vasuveda é capaz de grandes gestos, quase incompreensíveis. Consegue integrar os propósitos coletivos com os propósitos individuais. E abre mão destes em função daqueles. O Vasudeva é o grande Sol.

E há também dentro de nós a possibilidade de um Govinda, que se traduz na insegurança do caminhar com pernas próprias, na condição da alma frágil e errante, que têm dificuldades de empreender a própria busca e não se perder no meio do caminho, mudar facilmente de rotas, perder-se no meio dos tolos, das distrações, das simples doutrinas e ideologias, dos horizontes menores, do esquecimento dos propósitos, e das pressões dos outros. O Govinda em nós tem dificuldade de saber quem somos e para onde vamos. Por isso precisa, durante toda a vida, de amparo e aconselhamento, de aprender a se ouvir antes de falar. Govinda é também a Sombra.

Há personagens marginais na Obra, que em nossa cultura aparecem de forma central. Os mais fortes são ascetas e sábios religiosos, doutores, que dedicam suas vidas no aprendizado infinito do Sagrado, mas que esquecem de praticar o que aprenderam. Em situações-limite como esta, desaparecem e se calam, deixando as ovelhas soltas pelo caminho.

Penso que a obra de Hermann Hesse precisa nos provocar, sobretudo a todos os que colocamos a nossa vida a serviço de projetos coletivos, como militantes, religiosos, políticos, educadores sociais. Todos os personagens do livro são pessoas que buscam, que se encharcam das grandes causas e propósitos. E porque a vida é tão densa e sutil, precisamos estar atentos para descobrir qual é a dimensão que em nós predomina, qual é a dimensão que alimentamos a cada dia e diante de um conflito, qual é a que estamos preterindo, qual é a que precisa ser imprescindível às pessoas que nos representam politicamente, por escolha nossa!

* * * *

Não podemos acreditar que o governo e o presidente Lula crêem, de fato, que D. Cappio é apenas uma pessoa teimosa e não um representante de uma coletividade, que abre mão inclusive de sua vida – e isso é martírio e não suicídio! -, para defender uma causa sagrada. Não podemos acreditar que o presidente Lula, que passou grande parte de sua vida à frente de mobilizações, greves e resistências, e sabe o significado das mesmas, coloque-se hoje surdo e indiferente a esta forma de participação. Não podemos acreditar que o presidente Lula, gestado e eleito no seio das bases, ainda não tenha aprendido que em termos histórico-sociais é mais legítimo errar coletivamente que acertar sozinho (ainda que o suposto acerto pareça estar fora de questão!). Não, não podemos acreditar em tudo isso. Porque, se tivermos mesmo que acreditar, os movimentos de base, sobretudo os cristãos, nunca mais irão querer saber de Lula e do PT.

Compreender a decisão de D. Cappio também é difícil à nossa lógica glutona. Mesmo os cristãos perderam, em grande parte, a virtude do sofrimento vicário, voluntário, que tem como objetivo modificar espiritualmente pessoas e ambientes através do sacrifício pessoal assumido voluntariamente e por amor. Gandhi dizia que um único homem que chegou à plenitude do amor é capaz de neutralizar o ódio de milhões. Não há nada de narcisismo, já que os narcisistas não abrem mão de suas vidas e nem da satisfação imediata de seus desejos e necessidades. E se não entendemos o gesto não deveríamos julgá-lo, interpretá-lo nem condená-lo, mas sim colocarmo-nos na sintonia da amplitude do mesmo.

Certo é que o presidente Lula disse à D. Cappio, em 2005, que se fosse convencido do contrário, suspenderia o projeto de transposição. Como não suspendeu, certamente não foi convencido (ou nem tentou deixar-se convencer). Mas o fato é que o presidente Lula precisa saber que não apenas D. Cappio, mas muitos de nós também não estamos convencidos do projeto de transposição, que fere a integralidade do conceito de sustentabilidade promulgado inclusive no documento A Carta da Terra que o próprio governo assumiu. Se a transposição é tão importante e imprescindível aos milhares de pobres e excluídos, precisamos ser convencidos de forma eloqüente. D. Cappio nos convenceu, com a eloqüência de seu espírito de serviço, jejum e oração.

Governar um país supõe a grandeza de mediar conflitos e buscar consensos que não desrespeitem a democracia. Ao presidente e aos ministros cabe essa responsabilidade. Precisamos de um ministro da integração que não desagregue a cada palavra que pronuncia; precisamos de uma ministra do meio ambiente que não se omita nessa hora e que seja capaz inclusive de renunciar diante das causas maiores; precisamos de um presidente que entenda que um país não se governa a partir de sua própria cabeça.

Ainda que o jejum de D. Cappio e seus companheiros e companheiras solidários seja interrompido a tempo de uma tragédia maior e irreversível, cada minuto de espera tem sido um ato de perversão do governo contra a vida deles e a vida de todos os que partilham da mesma causa. Fere à nossa consciência e aos nossos direitos humanos.

Eloqüente é ser como o balseiro, Vasudeva, que se dispõe a ouvir o Rio, através do murmúrio e movimento de suas águas, através da fala de todos os que têm as suas vidas atravessadas por ele, da fala daqueles que militam no movimento social e têm competência política e técnica para propor outras iniciativas, da expressão do Rio que habita naquelas pessoas, no Rio que é cultura, subjetividade, espiritualidade. Tamanha grandeza supõe a capacidade de conhecer os rios que correm dentro de nós. Tamanha grandeza supõe a capacidade de acreditar que, na voz dos rios, concentram-se as vozes de todas as criaturas.

Se estivesse entre nós, Hermann Hesse certamente viria em D. Cappio a expressão do balseiro Vasudeva, de sua obra. As palavras do balseiro atestam a minha intuição. D. Cappio é, simultaneamente, o balseiro e é também aquele de quem o balseiro se orgulha: Muita gente fez a travessia comigo, milhares de homens, provavelmente, para todos eles o rio representava apenas um estorvo a atrasar a sua viagem. Andavam atrás de dinheiro ou de negócios (...). Mas houve alguns, entre milhares, uns poucos, quatro ou cinco talvez, para os quais o rio cessou de ser um estorvo. Escutaram a sua voz, prestaram atenção ao que ele dizia, e o rio tornou-se-lhes sagrado, assim como chegou a ser para mim!

Que o sofrimento vicário de D. Cappio - virtude que não transborda em nós! -, no dia internacional dos direitos humanos, inspire os nossos corações a buscarmos uma humanidade mais integrada, que não tenha a pretensão de estar sobre a natureza, mas que se reconheça uma com ela.

*Coordenadora pedagógica do Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis e doutoranda em Meio Ambiente (Uerj).