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Recanto Madre Paulina (Petrolina,
PE):
É preciso conhecer e salvar esta
obra
*Maristela Barenco Corrêa de Mello
Neste
mês de janeiro de 2008, saímos em 3 amigos, de
carro, buscando seguir o curso Rio São Francisco: atravessamos
Minas Gerais, a Bahia e Pernambuco. No dia 31 de dezembro,
na hora do por-do-sol, estávamos nós, defronte
à Igrejinha de São Francisco, em Sobradinho,
onde dias antes fora interrompido o jejum de D. Cappio. Não
tivemos a alegria e o prazer de encontrá-lo. Mas encontramos
outros tesouros na região que, como o Rio São
Francisco, encontram-se também ameaçados, colocando
em risco a vida de muitos nordestinos, sobretudo os doentes
e pobres. Queremos partilhar com vocês o trabalho de
Ir. Maria Luciano Florentino, do Recanto Madre Paulina.
Irmã Maria é uma pessoa muito especial. Aos
78 anos de idade e grande jovialidade e saúde, conjuga
muitas experiências: a profissional, de longos anos
de enfermagem, a de longos anos de terapias naturistas e orientais
(iridologia, acupuntura, radiestesia e homeopatia) e mais
de 5 décadas de uma fé disciplinada e inabalável,
cujo serviço a Deus se traduz no serviço aos
irmãos, sobretudo os doentes e mais excluídos.
Está à frente de uma Obra Social – o Recanto
Madre Paulina – que tem o nome da fundadora de sua Congregação,
que já vai para 3 décadas... sem nenhum financiamento,
parceria e apoio, encontrando-se, neste momento numa crise
financeira ímpar. Junto com ela atua uma equipe dedicada
e maravilhosa. Quem quiser encontrá-la diariamente
é só ir até o Recanto, onde ela passa
o dia atendendo aos doentes. Em consultas cuidadosas e minuciosas,
Ir. Maria faz-nos lembrar um tempo onde éramos totalidades
não fragmentadas.
O
trabalho tem início às 5:40 horas da manhã,
quando, enfileirados, lado a lado, aguardam-nos baldes com
água fria e quente, para o escalda-pés, a primeira
terapia do dia. Zezinho, terapeuta que está no local
há muitos anos, dinamiza o trabalho terapêutico,
simples, mas trabalhoso. Os banhos são diversos: o
de tronco, o de vapor, com ervas, o grande banho após
a terapia com o barro. Paralelamente tomamos o suco puro de
limão, mais tarde o extrato de ervas frescas, os chás
e as homeopatias. Após os banhos, há a caminhada
sobre os seixos do jardim, os exercícios de circulação,
ginástica, yoga, reiki, shiatsu, massagem. Após
um almoço vegetariano e nutritivo, reunimo-nos em volta
de uma roda de partilha e oração e, finalmente,
vamos para a terapia do barro, onde ficamos deitados, meditando
e descansando, em silêncio, buscando-nos regenerar com
a irmã-terra, da qual viemos e para onde retornaremos,
e de onde a modernidade nos afastou. A proposta é muito
simples: o Recanto nos ajuda a limpar e purificar o sangue,
o grande Rio que corre dentro de nós e nos nutre.
Outra experiência importante
é a do encontro das várias pessoas que lá
se internam, umas mais doentes, outras menos, todas buscando
um fortalecimento mútuo. É de se emocionar...
Aos poucos desponta um grande sentimento de gratidão,
à Deus, à vida, aos companheiros, aos terapeutas,
à Irmã Maria, enfim, ao Recanto Madre Paulina.
Pessoalmente, testemunho que ninguém deveria ter um
problema de saúde sem ter a oportunidade de passar
por lá... Mas penso também que ninguém
deveria esperar ficar doente para conhecer esse trabalho,
extremamente acessível.
A seguir, vamos conhecer mais um pouco
a vida e a obra de Ir. Maria.
1- Como teve início esse trabalho?
Tudo tem uma história. Nada cai do céu. Em
1983, entrei em estafa e tive que ir embora daqui do nordeste,
porque entrei em choque com a fome do povo. No tempo do governo
Sarney, havia a impossibilidade do povo comer carne e ainda
tinha o ágio. Na Santa Casa, onde eu era enfermeira,
sentia-me atendida em todas as minhas necessidades. Mas e
os pobres? Eles não me saíam do coração.
O contraste do nordeste com o sul, de onde eu sou e de onde
eu vinha, causou-me um grande impacto, de tal forma, que eu
não conseguia mais me alimentar. Quando eu estava comendo,
os pobres chegavam e eu comecei a me sentir bloqueada. Não
tinha condições de resolver os problemas dessa
população. Sentia-me impotente e bloqueada.
Ia visitá-los e ficava impactada com as suas moradias,
que eram quadrados de 2x2, sem camas e sinais de vida. Isso
aí é duro: via, nos fundos das casas das famílias,
pedras (que eram fogões) que denunciavam que havia
dias sem cozinhar nada. Famílias com muitas crianças.
E a pobreza traz doença. Aqui era muita miséria,
fome e doença. O povo viu em minha pessoa, enfermeira
aposentada, e em Ir. Graciema Terezinha Tamanho, com quem
eu trabalhava, a saída para os seus problemas.
“Na Santa Casa,
onde eu era enfermeira,
sentia-me atendida em todas as minhas necessidades.
Mas e os pobres? Eles não me saíam do coração” |
Com problemas de estafa, retornei ao Sul. Encaminharam-me
para uma Casa de Saúde, ministrada pela Conferência
dos Religiosos do Brasil, através da equipe de Pe.
Augusti, em Belo Horizonte. A partir daí comecei a
viver esses princípios do Naturismo. Apresentei essa
prática num capítulo da Congregação,
fruto de uma experiência de 1 ano, em 1986. A Congregação
aprovou, sobretudo diante dos testemunhos. Cada irmã
tinha apenas um salário. Cada participante trazia sua
alimentação e ficavam 15 dias fazendo uma purificação.
Vi neste trabalho a possibilidade de minimizar a carência
local dos nordestinos. De posse deste instrumental, senti-me
forte para retornar ao nordeste. De lá pra cá,
nestes 28 anos, nunca mais parei. Nunca ninguém parou
de vir. Não houve esse planejamento. Mas foi a necessidade.
O trabalho começou através da emissora rural
e da criação de hortas nas Escolas (que têm
água e são muradas). Essas hortas (8) existem
até hoje. Virou um hábito local. Cuidamos de
uma que está num Colégio, mas pertence ao Recanto.
Há muitos canteiros e muitas pessoas sobrevivendo desses
canteiros. As hortas geraram a melhoria da realidade local.
O espaço da Escola é cedido às famílias.
Inicialmente, as condições eram muito limitadas.
E o povo daqui não tinha continuações
de ajudar. Aqui tinha mais barracos que casas. No tempo de
chuva, carregávamos o povo pra dentro da Igreja e ajudávamos,
em mutirão, a construir as casas.
2 – A proposta do Recanto nasceu inspirada
por qual carisma e qual missão? Qual a visão
de saúde?
O trabalho nasceu inspirado pelo carisma da congregação
Madre Paulina. O nosso carisma é a evangelização
em escolas, creches, casas de repousos, de idosos, a acolhida
da criança e dos abandonados. Servir à Igreja
local, onde cada se encontra. Neste contexto, o objetivo foi
acolher esse povo para lhes mostrar outras possibilidades
de alimentação e de vida.
A nossa visão de Saúde está na possibilidade
de uma boa alimentação e das condições
de saúde onde se vive. A saúde não está
na farmácia, mas naquilo que se come, além do
bem-estar integral. Se eu penso que tenho saúde e que
sou capaz, faço. A saúde está dentro
de mim, mas precisamos ter a coragem de mudar de hábitos.
3- Qual a importância deste trabalho no contexto
nordestino?
| “Mas, quando os casos são
graves e não podem ficar aqui, prefiro morrer com
eles que deixá-los sós” |
No passado a realidade era muito mais dura que hoje, 28 anos
depois. Mas até hoje, quando chegam pessoas com casos
muito graves, que não podem ficar aqui, acompanho-os
nas filas dos hospitais e permaneço junto com elas.
Entendo que o meu direito vai até um limite. Respeito
a medicina tradicional e os médicos, com quem trabalhei
por 33 anos em hospitais. Respeito os princípios que
aprendi e vivi e, talvez por isso, não tenha problemas
com médico algum. Mas, quando os casos são graves
e não podem ficar aqui, prefiro morrer com eles que
deixá-los a sós. Apesar disso, os hospitais
não abrem as portas para mim.
Atualmente, há 8 anos que não chove. Isso gera
muitos problemas. Quem não está na beira do
Rio São Francisco tem que ter muita estrutura pra viver.
Ano passado teve uma chuva, muito imperceptível. Aqui
chove de dezembro a março. Esse ano a seca está
prolongada. Em um mês (de novembro de 2007 a janeiro
de 2008) o Rio já desceu consideravelmente em seu nível,
numa média de 2 metros para dentro. Há 10 anos
que isso não acontecia... Essa é a realidade.
4- Em média, quantas internações
já se deram no Recanto Madre Paulina nestes 28 anos?
Durante 12 anos seguidos, aproximadamente, tivemos uma média
de 800 internações ao ano, com um total aproximado
de 9.600 pessoas. Hoje, com a abertura de outras casas que
fazem um trabalho parecido, a média fica entre 300
a 400 internações por ano.Mas já devem
ter passado por aqui aproximadamente mais de 16 mil pessoas.
O Recanto foi uma Casa pioneira no Naturismo. Hoje, há
concorrência. Na época, éramos o novo
e inacreditável, vistas por muitos como feiticeiras.
Hoje há muitas outras casas, muitas delas inspiradas
no trabalho daqui. Muitas casas já abriram e fecharam,
porque dependeram de verbas externas. O Recanto sempre viveu
com verbas próprias, dos que podem contribuir.
5- Qual o perfil das pessoas que passam por aqui,
em termos de idade, classe social e problemática?
Uma média de 70 a 80% são mulheres que nos
procuram. Elas não ficam tanto tempo, em função
de suas famílias. Mas elas se abrem mais para o novo
do que os homens. Aqui atende-se também recém-nascidos,
com grande sucesso. Uma vez veio aqui um casal novo com uma
criança com espinha bífida. O que pudemos fazer,
num caso deste, foi ensinar aos pais os princípios
do naturismo. E assim eles criaram essa criança. Para
nossa surpresa, ela voltou com 10 anos e não precisou
de cirurgia. É praticamente normal. A espinha fechou,
a cabeça não cresceu, os traços são
mínimos e ela apenas urina mais.
“Com uma gratuidade prevista
para 21% dos atendidos,
chegamos a atender, gratuitamente, acima de 40% dos
que nos procuram...” |
As mulheres são mais cansadas e estafadas que os homens.
Quanto às problemáticas, as mais comuns são
constipação intestinal (doença da sociedade
moderna), a ansiedade, a insegurança, a depressão,
os distúrbios psíquicos. As pressões
sociais são grandes. As mulheres com relacionamentos
rompidos, também. A maioria é dos que aqui chegam
são os pobres, os que sobram do sistema de saúde.
Muitos vêm diretamente de internações,
trazidos por ambulâncias.
O Recanto é uma Instituição filantrópica,
que já possuiu o título de utilidade pública
federal, mas que está em fase de pedido de renovação.
Com uma gratuidade prevista para 21% dos atendidos, chegamos
a atender, gratuitamente, acima de 40% dos que nos procuram,
o que se torna um problema institucional, já que a
fonte única de renda vem destas contribuições
pessoais.
6- Quais os resultados alcançados? Exemplifique.
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“De 50% para cima alcança-se
o sucesso no tratamento.
O que me estafa
é não conseguir tirar a dor e o sofrimento
do outro”
|
De 50% para cima alcança-se o sucesso no tratamento.
O que me estafa é não conseguir tirar a dor
e o sofrimento do outro. O povo geralmente roda muito, gasta
o dinheiro com tratamentos convencionais e depois, quando
não há mais dinheiro nem esperança, vêm
para cá. Exemplos: A Esclerose Múltipla é
considerada uma doença irreversível e progressiva.
Mas aqui testemunhamos 80% de melhoras. Não me lembro
de ninguém que não tenha tido melhoras significativas.
Muitos casos não têm reincidência. São
casos de cura mesmo. Uma moça que já tinha 6
anos em cadeira de rodas se recuperou. A esclerose, do tipo
aminotrófica lateral, é mais difícil
e desafiante, mesmo na busca de uma melhora significativa.
Outra questão é a obesidade. Perde-se, na casa,
uma média de 500 g por dia com o tratamento proposto
e a alimentação. Mas há um caso em que
a pessoa perdeu 30 kg em 23 dias. O resultado é muito
satisfatório. E isso sem gerar qualquer quadro depressivo.
Há resultados satisfatórios, também,
em relação à depressão. Aos poucos,
a fitoterapia, a homeopatia e a acupuntura vão substituindo
os medicamentos convencionais. Em diabete juvenil não
se pode tirar a insulina. Mas os adultos que cooperam, saem
tomando os chás. Mulheres e homens que não podem
engravidar também buscam o Recanto e têm resultados.
Nem uma pessoa passou mais de 3 meses sem engravidar. Conhecemos
muitas crianças, as quais chamamos de “crianças
de barro”, umas com mais de 20 anos! Mas reconhecemos
a importância em 50% da alimentação e
também do barro, pois tivemos muitas curas antes de
termos o conjunto das terapias atuais. Hoje trabalhamos também
com massagens. Aluísio e Zezinho, que trabalham conosco
e são como filhos para mim, são massagistas
e foram formados nesses anos. Uma massagem bem administrada
opera milagres. Há pessoas que entram chorando e saem
sorrindo.
7- O Recanto Madre Paulina têm muitos parceiros?
Os nossos parceiros são a equipe de funcionários,
que vivem a crise e permanecem conosco, e os usuários.
Estamos ensaiando uma relação com a Universidade
do Vale do São Francisco (Univasf), que teve início
através de um atendimento familiar. Há a possibilidade
de se abrir o Recanto para local de estágio. Estamos
também envolvidos num projeto de reflorestamento às
margens do Rio S. Francisco, com plantas medicinais (cascas).
Há uma empresa que fornecerá os encanamentos
para a água, necessária ao Reflorestamento.
8- Quais as dificuldades, desafios que o Recanto
atualmente enfrenta?
| “Só fico
aqui no Recanto se puder atender,
sobretudo, os pobres.
No dia em que isso mudar eu não estarei mais
aqui” |
A principal dificuldade é a financeira. Nunca no passado
devemos salários. Isso está acontecendo pela
primeira vez. Isso me causa muita dor, porque entendo que
os funcionários estão aqui porque precisam do
trabalho. De 15 funcionários, passamos no último
ano para 9. Há um déficit de R$ 10 mil / mês.
Mas só fico aqui no Recanto se puder atender, sobretudo,
os pobres. No dia em que isso mudar eu não estarei
mais aqui. À medida que o dinheiro entra, repassamos
diretamente para os funcionários. Esse ano foi uma
crise permanente.
Recebemos uma vez uma ajuda de 30 mil reais. Veio por intermédio
de um padre italiano, amigo do irmão de Ir. Graciema,
que hoje se encontra em Belo Horizonte. No tempo de juros
altos do governo Sarney foi possível fazer parte desta
construção.
Infelizmente, a Diocese de Petrolina não apóia
o trabalho e inclusive quer de volta o espaço, há
algum tempo. A Comunidade apóia o trabalho e têm
nos dado força para permanecermos aqui.
|
“A Chácara foi um presente de Deus
para a reconstrução de um novo Recanto.
E sinto em meu coração que este projeto
será um dia realizado” |
Fiquei durante 6 anos sozinha aqui nesta obra. Com a saída
da minha Congregação do local, pedi uma licença
por 3 anos, renovei o pedido por mais 3, para dar continuidade
ao Recanto. Mas entendo que tirei uma licença em função
de uma Missão. Nunca por dúvidas de vocação!
Nunca fiquei e nem me senti sozinha neste tempo. A Comunidade
sempre me apoiou. Agora estou novamente com outra Irmã,
Dalila, que realiza um trabalho importante com a Catequese
e nas Escolas. Eu amo a minha Congregação e
também esta Comunidade.
Nestes 6 anos em que estive licenciada da Congregação,
ganhamos de presente, de uma cliente, portadora de esclerose
múltipla, uma Chácara, à beira do São
Francisco. A Chácara foi um presente de Deus para a
reconstrução de um novo Recanto. E sinto em
meu coração que este projeto será um
dia realizado. O que falta são recursos para a Construção...
Maiores informações:
Ir. Maria Luciano Florentino
Rua José Costa Lima, 326
Bairro Ouro Preto – Petrolina
56.318-020
Fone: (87) 3863-2492
email: recantompaulina@ig.com.br
/ ir.maria.florentino@hotmail.com
| *Coordenadora
pedagógica do Centro de Defesa dos Direitos Humanos
de Petrópolis e doutoranda em Meio Ambiente (Uerj). |
Sobre a lição
dos Rios,
sobre os rios que correm dentro de nós,
no dia internacional dos direitos humanos
*Maristela Barenco Corrêa de Mello

Ama as águas!
Não te afastes delas!
Aprende o que te ensinam!
(Sidarta, de Hermann
Hesse)
O atual embate político entre o Governo Lula e os Movimentos
Sociais, acerca da transposição do Rio São
Francisco, traz à tona - mais do que figuras humanas
e políticas -, arquétipos que habitam em todos
nós. Por isso o contexto é tão difícil
de ser entendido: coloca frente a frente dimensões
e lógicas distintas demais nos personagens centrais:
Lula e o Governo, de um lado; D. Cappio e o Movimento Social,
de outro. Atores que foram gestados e partilharam de uma mesma
infância, adolescência e juventude de sonhos e
projetos, agora se antagonizam, evidenciando a predominância
de diferentes arquétipos que vão se constituindo
em nossas almas a partir dos horizontes que vislumbramos ao
longo da vida.
As palavras, os discursos e a razão, nesta conjuntura
política, parecem velar e encobrir mais do que desvelar,
descobrir e iluminar nossas dúvidas acerca do Projeto
do Governo. Lula e o Governo simplesmente parecem não
ter o que dizer e argumentar. Não dialogam, não
informam, não trocam pontos de vista. Pela primeira
vez, inclusive, a palavra, o discurso e a razão de
Lula e do Governo não estão sendo alvos de crítica
da direita. Por que será?
Este cenário é muito tenso e muito triste para
todos nós, os que elegemos o Lula, e que respeitamos
a sustentabilidade ecológica, cultural, econômica,
social e ética. Diante disso, trazemos uma reflexão
literário-poética, no dia internacional dos
direitos humanos, com a esperança de que a mesma possa
tocar os nossos corações e emoções
, sobretudo. Não será por acaso que Jesus escolheu
as parábolas...
O clássico Sidarta, de Hermann Hesse
Em 1950, o escritor Hermann Hesse publicou um clássico,
com o título de Sidarta, que, além de ser belíssimo,
é fonte de inspiração permanente para
pensarmos os arquétipos que ganham vida e forma dentro
de nós em nossa trajetória humana e histórica.
O livro conta a história do belo Sidarta, filho de
brâmane, de extrema religiosidade, de testa luzente
e olhos de rei, que despertava amor e admiração
em todos os que o rodeavam, mas para si mesmo não era
fonte de alegria e admiração. Sidarta, desde
muito cedo, abrigava em suas entranhas o descontentamento
de perceber que apesar de ter aprendido a maior e melhor parte
dos seus conhecimentos com seus pais, mestres e sábios
brâmanes, sentia-se vazio, com espírito insatisfeito,
alma inquieta e o coração insaciado. Prezava
os conhecimentos e as tradições, mas estava
cansado dos sábios, ascetas e sacerdotes que só
logravam conhecer e não praticar e viver essa profunda
sabedoria, que não conduziam às pessoas para
dentro de si mesmas.
Ao lado de Sidarta cresceu Govinda, seu amigo, também
filho de brâmane. Ambos partilhavam o cotidiano da infância
e da adolescência, meditavam juntos, conversavam muito
e nutriam sonhos e crenças em comum. Govinda admirava
Sidarta desde muito cedo. Em seu coração, inspirado
pelas idéias brâmanes, também intuía
o desejo de ser grande - talvez como Sidarta -, mas não
encontrava referências em si mesmo. Sabia que seu amigo
não seria indolente oficial do templo, nem ganancioso
mercador de fórmulas mágicas, nem orador vaidoso
e vazio, nem tampouco sacerdote perverso, bifronte e muito
menos ovelha bonachona, estúpida, em meio ao rebanho
de outros iguais. Govinda não sabia qual caminho seguir,
e por isso, decidiu seguir Sidarta.
Um dia Sidarta decidiu partir em busca daquilo que poderia
preencher o vazio de sua alma. Enfrentou família e
tradições e pôs o pé na estrada,
seguindo um grupo de ascetas peregrinos, chamados samanas,
que passavam em sua cidade e inspiravam-no a coragem dos grandes
homens. Era o início de sua jornada, que começa
com um movimento de pôr os pés na estrada. Govinda,
ao sabê-lo, entrou em pânico. Não podia
perder Sidarta, mas nas tinha a coragem de uma decisão
desse porte. Mas no amanhecer seguinte, quando Sidarta deixava
a cidade, convicto, Govinda se juntou a ele para ir com os
samanas.
E assim a grande jornada começava. Quem quiser conhecê-la
em seus maravilhosos detalhes e significados, deve buscar
o livro. O fato é que muitos foram os encontros de
Sidarta. Dos mais ascéticos e espirituais aos mais
terrenos e materiais. Mas Sidarta aprendeu com cada um deles,
e dominou a arte de esperar, jejuar e meditar, como uma das
maiores aquisições, que o conduziu ao grande
Encontro. De posse dessas aquisições, Sidarta
encontra um balseiro, Vasudeva, e, finalmente o Rio.
Govinda tentou seguir Sidarta até onde pôde.
Resolveu tornar-se discípulo do Buda Gautama e assim
passou toda a sua vida, ainda que no final da mesma procurasse
algo que nunca encontrou. O Budismo era grande. A alma de
Govinda parecia frágil.
Vasudeva, o balseiro, vivia de travessias... mas não
buscava nada; apenas conduzia aqueles que buscavam. Aprendera
com o Rio que nada se busca e tudo se vive. Havia aprendido
todas as lições desse Rio, de quem fora discípulo.
E dizia: Prefiro esse rio a todo o resto do mundo. Muitas
vezes escutei o seu murmúrio, muitas vezes observei
o seu olhar e nunca deixei de aprender dele. Um rio pode ensinar-nos
um tanto de coisas.
Entre os personagens, há um, em especial, que não
vem em forma humana. É o Rio, que atravessa a vida
de todos. É a Fonte e o Desembocadouro. É como
fio condutor de todas as vidas que ali se tecem em sua complexidade.
É o Sábio que acolhe e ouve a todos que dele
se aproxima e por isso tornou-se o grande Mestre. O Rio também
ensina. Rio que não é recurso natural a ser
explorado. Rio que enlaça a vida de um e de todos,
que tem muitas histórias, memórias, subjetividades,
representações e crenças. Rio que é
a própria Vida!
Embora Sidarta, Govinda e Vasudeva sejam os grandes personagens
da Obra, bem diferentes e individualizados, mais do que pessoas,
sabemos que eles são dimensões e arquétipos
que vivem dentro de cada um de nós. Coabitam em nossos
corações.
Há dentro de nós a possibilidade de um Sidarta,
que se traduz em altivez e determinação para
se colocar a caminho, e em abertura para aprender com tudo
e todos os que o cercam. Sidarta nunca se perde, porque sempre
aprende com o que se depara, faz sínteses, adquire
maturidade e experiência. Sidarta é aquela dimensão
rara, porque preciosa, que aprendeu a jejuar, a meditar e
a esperar, e que nunca sucumbe porque sabe qual o seu propósito.
Há dentro de nós a possibilidade de um Vasudeva,
o balseiro, que são os mahatmas, grandes almas da existência,
dimensão esta que se traduz na serenidade daqueles
que já encontraram o essencial e sabem distingui-lo
de todos os supérfluos. O Vasudeva já encontrou
o Rio, já aprendeu a ouvi-lo, a escutar as suas lições
e a promover encontros e travessias com quem o cerca. Por
isso Vasuveda é capaz de grandes gestos, quase incompreensíveis.
Consegue integrar os propósitos coletivos com os propósitos
individuais. E abre mão destes em função
daqueles. O Vasudeva é o grande Sol.
E há também dentro de nós a possibilidade
de um Govinda, que se traduz na insegurança do caminhar
com pernas próprias, na condição da alma
frágil e errante, que têm dificuldades de empreender
a própria busca e não se perder no meio do caminho,
mudar facilmente de rotas, perder-se no meio dos tolos, das
distrações, das simples doutrinas e ideologias,
dos horizontes menores, do esquecimento dos propósitos,
e das pressões dos outros. O Govinda em nós
tem dificuldade de saber quem somos e para onde vamos. Por
isso precisa, durante toda a vida, de amparo e aconselhamento,
de aprender a se ouvir antes de falar. Govinda é também
a Sombra.
Há personagens marginais na Obra, que em nossa cultura
aparecem de forma central. Os mais fortes são ascetas
e sábios religiosos, doutores, que dedicam suas vidas
no aprendizado infinito do Sagrado, mas que esquecem de praticar
o que aprenderam. Em situações-limite como esta,
desaparecem e se calam, deixando as ovelhas soltas pelo caminho.
Penso que a obra de Hermann Hesse precisa nos provocar,
sobretudo a todos os que colocamos a nossa vida a serviço
de projetos coletivos, como militantes, religiosos, políticos,
educadores sociais. Todos os personagens do livro são
pessoas que buscam, que se encharcam das grandes causas e
propósitos. E porque a vida é tão densa
e sutil, precisamos estar atentos para descobrir qual é
a dimensão que em nós predomina, qual é
a dimensão que alimentamos a cada dia e diante de um
conflito, qual é a que estamos preterindo, qual é
a que precisa ser imprescindível às pessoas
que nos representam politicamente, por escolha nossa!
* * * *
Não podemos acreditar que o governo e o presidente
Lula crêem, de fato, que D. Cappio é apenas uma
pessoa teimosa e não um representante de uma coletividade,
que abre mão inclusive de sua vida – e isso é
martírio e não suicídio! -, para defender
uma causa sagrada. Não podemos acreditar que o presidente
Lula, que passou grande parte de sua vida à frente
de mobilizações, greves e resistências,
e sabe o significado das mesmas, coloque-se hoje surdo e indiferente
a esta forma de participação. Não podemos
acreditar que o presidente Lula, gestado e eleito no seio
das bases, ainda não tenha aprendido que em termos
histórico-sociais é mais legítimo errar
coletivamente que acertar sozinho (ainda que o suposto acerto
pareça estar fora de questão!). Não,
não podemos acreditar em tudo isso. Porque, se tivermos
mesmo que acreditar, os movimentos de base, sobretudo os cristãos,
nunca mais irão querer saber de Lula e do PT.
Compreender a decisão de D. Cappio também é
difícil à nossa lógica glutona. Mesmo
os cristãos perderam, em grande parte, a virtude do
sofrimento vicário, voluntário, que tem como
objetivo modificar espiritualmente pessoas e ambientes através
do sacrifício pessoal assumido voluntariamente e por
amor. Gandhi dizia que um único homem que chegou à
plenitude do amor é capaz de neutralizar o ódio
de milhões. Não há nada de narcisismo,
já que os narcisistas não abrem mão de
suas vidas e nem da satisfação imediata de seus
desejos e necessidades. E se não entendemos o gesto
não deveríamos julgá-lo, interpretá-lo
nem condená-lo, mas sim colocarmo-nos na sintonia da
amplitude do mesmo.
Certo é que o presidente Lula disse à D. Cappio,
em 2005, que se fosse convencido do contrário, suspenderia
o projeto de transposição. Como não suspendeu,
certamente não foi convencido (ou nem tentou deixar-se
convencer). Mas o fato é que o presidente Lula precisa
saber que não apenas D. Cappio, mas muitos de nós
também não estamos convencidos do projeto de
transposição, que fere a integralidade do conceito
de sustentabilidade promulgado inclusive no documento A Carta
da Terra que o próprio governo assumiu. Se a transposição
é tão importante e imprescindível aos
milhares de pobres e excluídos, precisamos ser convencidos
de forma eloqüente. D. Cappio nos convenceu, com a eloqüência
de seu espírito de serviço, jejum e oração.
Governar um país supõe a grandeza de mediar
conflitos e buscar consensos que não desrespeitem a
democracia. Ao presidente e aos ministros cabe essa responsabilidade.
Precisamos de um ministro da integração que
não desagregue a cada palavra que pronuncia; precisamos
de uma ministra do meio ambiente que não se omita nessa
hora e que seja capaz inclusive de renunciar diante das causas
maiores; precisamos de um presidente que entenda que um país
não se governa a partir de sua própria cabeça.
Ainda que o jejum de D. Cappio e seus companheiros e companheiras
solidários seja interrompido a tempo de uma tragédia
maior e irreversível, cada minuto de espera tem sido
um ato de perversão do governo contra a vida deles
e a vida de todos os que partilham da mesma causa. Fere à
nossa consciência e aos nossos direitos humanos.
Eloqüente é ser como o balseiro, Vasudeva, que
se dispõe a ouvir o Rio, através do murmúrio
e movimento de suas águas, através da fala de
todos os que têm as suas vidas atravessadas por ele,
da fala daqueles que militam no movimento social e têm
competência política e técnica para propor
outras iniciativas, da expressão do Rio que habita
naquelas pessoas, no Rio que é cultura, subjetividade,
espiritualidade. Tamanha grandeza supõe a capacidade
de conhecer os rios que correm dentro de nós. Tamanha
grandeza supõe a capacidade de acreditar que, na voz
dos rios, concentram-se as vozes de todas as criaturas.
Se estivesse entre nós, Hermann Hesse certamente viria
em D. Cappio a expressão do balseiro Vasudeva, de sua
obra. As palavras do balseiro atestam a minha intuição.
D. Cappio é, simultaneamente, o balseiro e é
também aquele de quem o balseiro se orgulha: Muita
gente fez a travessia comigo, milhares de homens, provavelmente,
para todos eles o rio representava apenas um estorvo a atrasar
a sua viagem. Andavam atrás de dinheiro ou de negócios
(...). Mas houve alguns, entre milhares, uns poucos, quatro
ou cinco talvez, para os quais o rio cessou de ser um estorvo.
Escutaram a sua voz, prestaram atenção ao que
ele dizia, e o rio tornou-se-lhes sagrado, assim como chegou
a ser para mim!
Que o sofrimento vicário de D. Cappio - virtude que
não transborda em nós! -, no dia internacional
dos direitos humanos, inspire os nossos corações
a buscarmos uma humanidade mais integrada, que não
tenha a pretensão de estar sobre a natureza, mas que
se reconheça uma com ela.
| *Coordenadora
pedagógica do Centro de Defesa dos Direitos Humanos
de Petrópolis e doutoranda em Meio Ambiente (Uerj). |
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